domingo, 24 de setembro de 2017

O Tempo e a Vida: Reflexões filosóficas sobre importância do tempo nas nossas vidas

O Tempo e a Vida: reflexões filosóficas sobre a importância do tempo nas nossas vidas



Resumo-Introdutório
Vivemos numa época em que a vida apresenta-se demasiado dinâmica e agitada. Esta agitação e dinâmica da vida veio encurtar as horas, os dias, os anos, os séculos, numa palavra, o tempo. De facto, parece-nos que as 24h por dia já não são suficientes para suprir as nossas actividades básicas quotidianas: matabichar, ir ao serviço, ler jornal, telefonar, acompanhar o jornal na tv, consultar o email ou qualquer rede social em que esteja conectado, fazer compras, ir ao salão ou barbearia, limpar o carro, estudar, conversar com família e amigos, ir à igreja, passear, lazer, descansar, amar, etc. As necessidades básicas do homem aumentaram de tal maneira que se torna difícil realizá-las plenamente. Diante desta dinâmica, muitas vezes nos queixamos aos nossos amigos, familiares, colegas e superiores hierárquicos de falta de tempo. Mas eu acredito que, mais do que a falta de tempo, o que nos falta é a consciência da importância do tempo para o sucesso nas nossas vidas. Pois, se tivéssemos a consciência da importância de tempo pautaríamos pelo seu bom uso e gestão. Este artigo, é resultado de reflexão critica e tem o objectivo de conscientizar o leitor no bom uso do tempo na sua vida.

Palavras-chave: tempo, vida, importância do tempo.

O que é o tempo?
Do latim tempus, significa etimologicamente, a duração que acompanha o crescer dos seres físicos. Mas o tempo pode ser Chronos ou Kairos. Chronos é o tempo considerado na sua totalidade, este envolve a mudança ou movimento nos fenómenos da natureza e a consciência dessa mudança por parte do homem. Chronos tornou-se a instância dominante, significando a possibilidade, sempre efectiva, de alteridade e alteração, na precariedade de cada instante. No Chronos há um abismo entre criação e liberdade na precaridade de cada instante onde nada está definitivamente adquirido ou é antecipável em resultado do imprevisto do acaso. No homem, a relação de sucessão do movimento pode ser decifrada como passado, presente e o futuro. O tempo como chronos só é possível se se admitir que o ser está em constante devir e esse devir tem lapsos de duração, o que cria a  sucessividade. Kairos éf o tempo oportuno, ocasião favorável à boa acção, ou o momento da decisão. É no kairos que se encontra a esfera da liberdade, liberdade esta que dá sentido à temporalidade humana enquanto ser temporal. O kairos é que dá sentido à vida do homem e, portanto, à sua história. O kairos é o tempo humano (MAFALDA, s/d.: 130-134).

Na história da filosofia ocidental o tempo vestiu-se de diversas roupagens. Os gregos concebiam um tempo metafisico, cíclico ou circular em que os factos humanos se repetem numa luta de contrários. Segundo a interpretação de Mafalda, Platão acredita que o tempo constitui uma medida intrínseca ao movimento, que inflecte a si mesmo em escansão regular e repetitiva, adversa a toda a alteridade ou inovação. (PLATÃO apud MAFALDA, s/d.: 135). Já na Idade Média, o judaísmo cristão acredita que o tempo foi criado por Deus e foi oferecido ao homem como um dom, e portanto o tempo é sagrado. Aqui o tempo ganha uma direcção linear e não mais circular, constituído de momentos únicos, irreversíveis, pelos quais Deus intervém na história para interpelar a liberdade humana. No tempo judeo-cristão cada momento é um momento de salvação, como explica Mafalda, “na verdade o tempo foi dado ao homem para que ascenda da sua insuficiência como criatura a sua plenitude como pessoa”(Ibidem: 137).

Na época renascentista acredita-se que a natureza foi corrompida devido ao pecado original, desta forma o homem, segundo Lutero e Calvino, tornou-se incapaz de uma verdadeira existência e duração porque afastado de Deus (Ibidem: 142).
Na idade moderna, em resultado da emancipação do homem a Deus, o mecanismo perfeito do universo dispensa a assistência providencial de Deus, que é relegado para o início da criação e, pela primeira vez, o homem sente-se sujeito da sua vida, do seu destino e da sua história. Descartes concebe o tempo centrado na ligação imediata do cogito à eternidade, que momento a momento o recria, conferindo uma existência actual, mas sem continuidade; trata-se de um tempo com direcção linear, geométrico, sem duração passada ou futura, à imagem da nova física matemática, que substituiu os conceitos de forma substancial, acto e finalidade pelos de átomos, inércia e choque (Ibidem: 143).
O debate ocidental sobre o tempo, não pára com Descartes, pois continua até os filósofos contemporâneos. Aqui importa-nos perceber que a concepção ocidental do tempo veste-se de túnica metafisica, isto é, é uma concepção abstracta e universal do tempo. Agora, o que será o tempo na visão africana?

A Concepção Africana do Tempo
 Mbiti havia afirmado a inexistência do conceito de futuro distante ou infinito no pensamento africano, fundamentando as suas ideias através de análises da África Oriental. As estruturas dessas línguas, segundo Mbiti, não generalizam um conceito de tempo de futuro infinito. John Mbiti conclui, então, que a língua é um guia seguro da concepção geral africana de tempo (MBITI, 1990:22-3).

Mas para Gyekye na filosofia akan, o tempo é visto como uma realidade concreta. Todavia isto não implica que a noção abstracta de tempo não existe nestes povos. Leiamos os seguintes provérbios: “Time is like a bird; if you do not catch it and it flies, you do not see it again[1] (GYEKYE, 1995:170); “Time changes[2] (Ibid). Ambos os provérbios citados exprimem uma noção abstracta de tempo. Portanto, para Gyekye o facto de os pensadores akan geralmente porem os seus pensamentos em termos concretos não nos deve levar a concluir que eles não têm conceitos abstractos. Pois que, os pensadores akans consideram o tempo como uma realidade concreta, associada com a mudança e crescimento. O tempo é pertencente ao mundo fenomenal por essência, embora não implique a inexistência de tempo futuro. Vejamos os seguintes provérbios: “This is a sad and memorable day[3];” “Time has its boundary; we do not traverse it[4]. Estes são alguns dos provérbios através dos quais Gyekye procura provar a existência do conceito de futuro infinito (Ibid).
Disto podemos concluir, que enquanto a concepção ocidental do tempo é metafisica e abstracta, a concepção africana do tempo é física (de physis = natureza) e concreta. Para o africano o tempo está ligado às vivências, ao quotidiano. E, aqui, considerarei o tempo na perspectiva africana.

O que é a vida?
Existem várias teorias que procuram responder à questão acima colocada, como é o caso da teoria vitalista e da teoria mecanicista, que se debatem em volta da mesma. Aqui, não iremos desenvolver um estudo aprofundado sobre esta matéria por razões da delimitação do nosso tema.

Embora haja várias maneiras de definir a vida, aqui apresento apenas duas que acho as mais importantes para este desenvolvimento: a vida biológica e a vida existencial (vida humana).

A vida no sentido biológico do termo seria o dom que certos seres da natureza tem de nascer, crescer, reproduzir-se e morrer. Aqui o conceito vida é mais abrangente, pois abarca todos os seres que tem este dom: plantas, animais e o próprio homem.
A vida no sentido de existência, é a vida propriamente humana, como afirma Batista Mondin “O homem é ser vivente. Antes, o homem é ser vivente por antonomásia” (MONDIN, ?????????) De facto a vida do homem se distingue de longe de outros seres viventes pela riqueza de possibilidades de experiências que carrega. Privar o homem de vida seria negar a sua própria essência, o que significa que a vida faz parte da sua essência. A vida do homem distingue-se também da dos outros seres por ser uma vida consciente de si mesma. Na obra O Homem, quem é ele? Explica-nos Mondin:

A vida humana se distingue das dos animais e dos outros seres viventes pelos níveis espirituais que atinge e pelas dimensões sociais que alcança: por isso se pode falar em vida espiritual, vida intelectual, vida social, vida politica, etc. distingue-se além disso, pela atitude nova que o homem possui nos confrontos da vida. O homem propõe o problema da vida, aprecia a beleza da vida, deseja melhorar a sua forma de vida, tende a transcender os limites de espaço e do tempo nos quais a vida esta confinada. Ele pode elaborar o seu próprio conceito de vida perfeita e é por essa vida que ele sente fascínio ardente. O homem é dono da própria vida, pode em larga escala controlá-la, dirigi-la, aperfeiçoá-la (MONDIN, ????: )

Desta citação, queremos fazer perceber a nossa maneira de conceber a vida neste artigo, que não se distingue da vida humana explicada por Mondin no trecho acima citado.
O Tempo e a Vida
As características cairológicas caracterizam a vida na sua facticidade precisamente porque determinam a relação que ela tem com o tempo e que é uma relação de realização (DASTUR, 1990: 32).

Se os empreendedores, para o sucesso nos seus negócios, são guiados pela máxima “Time is money, money is time”. Eu diria que para o nosso sucesso na vida “times is life, life is time”. O tempo esta estritamente correlacionado à vida e a vida ao tempo. O tempo é vida e a vida é tempo. O tempo é vida porque ele só existe aos seres que não apenas vivem, mas que são animados e tem consciência de tempo. Neste caso, o tempo é subjectivo enquanto é sentido e calculado no espírito humano, como afirmou Santo Agostinho  “Em ti ó meu espirito, meco os tempos”. Sem a vida (humana) não existe o tempo, seja objectivo[5] como subjectivo[6], porque só o homem tem a consciência de tempo objectivo, só ele pode medir o tempo no seu espirito, gravando o passado na memória, tomando a consciência do presente e perspectivando o futuro. A faculdade humana suprema do tempo é a memória. Com a memória e a razão o homem consegue perceber a sucessão dos factos na natureza e torna-se sujeito do conhecimento desses factos.

Para Heidegger o ser humano é tempo, o homem, que ele chama de Dasein (presença, ou o ser-ai repleto de possibilidades), tem uma essência temporal dado que é a partir dele que se pode decifrar o que é o tempo. No entanto, ele não existe no tempo da mesma maneira como os outros seres da natureza, ele é no fundo temporal.

O que o relógio indica não é a duração, a saber, a quantidade de tempo que flui, mas sim unicamente o “agora” tal como é fixado de cada vez em relação à acção presente, passada ou futura. Portanto, só posso ver as horas no meu relógio referindo-me a esse “agora” que sou e que remete para essa temporalidade “minha” que preexiste a todos instrumentos destinados a medi-la (HEIDEGGER apud DASTUR, 1990: 30).

Heidegger sustenta que só podemos aceder à intratemporalidade das coisas do mundo, apenas se o Dasein (homem) compreende-se a si mesmo como um ser mortal, isto é, quando antecipa o seu próprio fim, o seu próprio ser volvido, como o que constitui a possibilidade extrema do ser, e não como um simples acidente que lhe sobrevirá do exterior. A consciência de morte implica o tempo intervfalo
Heidegger advoga a individuação do tempo, o tempo não pode ser objectivo mas sim subjectivo. O cálculo objectivo do tempo é um meio para a apropriação do tempo verdadeiramente meu, isto é, da minha temporalidade.

Desta ideia heideggeriana, compreendemos que a importância do tempo na vida humana é suprema. Na pessoa individual, na família, no trabalho, na sociedade, a forma como usamos o tempo determina muitas vezes o nosso carácter e prestígio. O sucesso ou fracasso na vida, o nosso comportamento e valor dependem da maneira como usamos o tempo. Entretanto, o respeito pelo tempo impera-se necessário para organizarmos as nossas vidas. O tempo merece respeito, porque respeitar o tempo é respeitar a vida.
Entre as pessoas comuns existem as que preferem viver no tempo e as que preferem que o tempo lhes viva. Viver no tempo significa viver de acordo com as circunstâncias existenciais que decorrem num determinado momento das nossas vidas num determinado lugar. E ser vido pelo tempo equivale à deixar-se empurrar pelo tempo, isto é, pelas circunstâncias existenciais individuais, sociais e politicas num determinado momento das nossas vidas num determinado lugar. Mas, sábios são aqueles que vivem o tempo no tempo, quer dizer, sabem aproveitar os momentos que as circunstâncias da vida lhes oferecem, mesmo quando difíceis, pois há sempre algo de interessante ou que se possa aproveitar em todos os momentos das nossas vidas. Os sábios têm a consciência de que as circunstâncias da vida revelam como ela deve ser vivida e sabem que estas terão fim, portanto, sabem projectar viver outro tempo no tempo próprio. Por exemplo, jovens que vivem a juventude (um período de tempo vital) e pensam que não acaba e, no entanto, não preparam entrar na fase de adulto (outro período de tempo vital), não são sábios, porque não sabem usar o tempo e prendem-se às circunstâncias temporais da juventude sem preparar o dia de amanhã, e, portanto, deixam-se levar pelo tempo e este decide as suas vidas, tornando-lhes jovens sem projectos, e sem história, dado que a história não faz os homens mas os homens é que a fazem através do seus projectos. Jovens sábios, seriam aqueles que conscientes da importância do tempo, aproveitariam a sua juventude desfrutando de tudo de bom que nela existe evitando tudo de mau que ela incita e, sobretudo, preparam-se para desfrutar do outro período do tempo vital (adulto) e assim em diante. Estes últimos terão sabido viver o tempo e com o tempo e terão sabido morrer.

De seguida procuro mostrar o quanto o tempo é tao importante para organizarmos a nossa vida pessoal, social, profissional e, sobretudo, para lhe dar um sentido.

O tempo na vida pessoal
Ora irei aqui distinguir quatro (4) maneiras de estar a gerir bem ou mal o tempo, que são: 1) fazer algo a tempo: significa fazer um pouco antes que esse algo suceda mas no momento certo, por exemplo, chegar na escola 15 ou dez minutos antes da hora do toque para entrada na sala de aula; fazer algo no tempo: significa fazer algo exactamente no momento em que esta a começar a realizar-se, por exemplo, o estudante que chega na escola no momento em que o professor já entrou na sala de aula, porém esta ainda não começou ainda a ser dada; 3) fazer algo depois do tempo: significa que se atrasou em fazer esse algo, mas ainda há possibilidade ou chances de fazer, não é tarde demais, por exemplo, o estudante que entra na sala de aulas dentro dos primeiros 15min, depois de começar; e 4) fazer algo ultrapassado: significa que o que é feito não apenas esta atrasado, como também, não vale mais, não é mais preciso ou não se pode mais tolerar, por exemplo, o estudante que chega na sala de aulas quinze minutos depois, na norma não tem direito a entrar na sala de aulas, pois ultrapassou o tempo normal para estar actualizado ao que estará sendo discutido na sala de aulas.

Outro exemplo seria: Quando nascemos, logo nos primeiros dias, no estado sensório-motor, adquirimos uma consciência experimental e sensitiva do tempo. O nosso estômago reclama quando não somos aleitados a tempo[7] e começamos a manifestar fome e desconforto; mãe bem atenta não precisa ver que nos manifestamos para que nos dê de mamar, conhece o nosso estômago e portanto, o tempo para mamarmos e dá-nos o leite a tempo. Por outro lado, mãe um pouco atenta vê o relógio ou que acordamos e nos sentimos incomodados, percebe-se da fome e dá-nos de mamar no tempo, isto é, no preciso momento em que começamos a manifestar a fome. Se não fosse atenta poderíamos ter que chorar, gritar primeiro para que descobrisse que sentimos fome, e dar-nos-ia depois do tempo (normal para mamarmos antes de chorarmos); uma mãe miserável ou estúpida, ignorante e cruel, poderia deixar-nos dias esfomeados até ao ponto em que dar-nos de comer estaria ultrapassado e, portanto, nada nos restaria senão a morte.
Contudo, como diz o rapper português Valete, nas estrofes da sua música “Ainda há tempo”  canta:
Ainda há tempo para seres tu e deixares essa rotina
Sentires o futuro que ilumina, fazeres a tua sina
[…]
Ainda há tempo de dizeres que ainda há tempo
De acolheres o momento e partires com o vento
Para onde não há tormentos, não há dor nem lamentos
Apenas o intento de voltar a viver
Ainda há tempo para tu seres tudo aquilo que sonhaste
Recuperar o que abandonaste e o que fantasiaste
Ser o homem que abdicaste quando veio a descrença
E de ser a tal diferença que tu receaste
[…]
Embora possamos estar um pouco ultrapassados, não significa que não haja mais tempo para voltar a sonhar, estudar, amar, desejar ou viver. Aliás, para evitarmos com que venhamos a pronunciar a expressão “ainda há tempo” nas nossas vidas, é necessário sabermos controlar e respeitar o tempo, nunca devemos nos deixar levar pelo tempo. Isto significa que devemos desfrutar da nossa infância enquanto infantis conscientes de que o tempo da infância acaba. Por desfrutar a infância refiro-me a brincar, jogar, mas também estudar e prepararmos a nossa adolescência e juventude. Da mesma maneira a juventude deve ser desfrutada tendo consciência de que ela acaba e de que há um tempo nas nossas vidas que se aproxima e exige liberdade e, sobretudo, muita responsabilidade (a fase adulta). Desfrutar a juventude significa, a meu ver, brincar como forma de desenvolver as nossas potencialidades naturais, os nossos dons e talentos, significa fazer algo que gostemos e que nos proporcione muito prazer mas não nocivo que, por conseguinte, poderá contribuir para a nossa autoexpressão no futuro. Significa também, estudar e preparar o futuro a tempo. Desfrutar a juventude significa ainda namorar e experimentar novas coisas, mas sempre em justa medida (Aristóteles) conscientes de que ainda não é tempo certo para usar ao máximo a nossa liberdade porquanto ainda dependentes dos nossos pais ou encarregados de educação ou ainda porquanto conscientes da nossa imaturidade para conduzirmos uma vida em família.

No entanto, não devemos nos deixar escravizar pelo tempo, tal como um autor anónimo revoltou-se contra o tempo no poema publicado no Boletim Unisaf “I don’t like time/It makes people over timed/It ressucitates slavery[8]. Com isso, quis o autor dizer que a dependência do homem ao tempo pode negar-lhe a liberdade na medida em que este só passa a viver para obedecer o tempo. Nos dias de hoje, parece que o homem perdeu a sua liberdade, pois não mais usa o tempo ao seu dispor, o tempo é que o comanda. É engraçado ver uma pessoa na rua a correr porque atrasou à missa na igreja ou a um encontro. A pressa denota que essa pessoa quer cumprir com as ordens do tempo. Esta não usa o tempo, mas o tempo a usa.
Na verdade, o tempo só ressuscita a escravatura àqueles que não sabem ser o seu senhor, isto é, geri-lo, comandá-lo, pois que o senhor é aquele que comanda, que dirige e gere.
Em suma, voltando à mesma letra da música de Valete:
[…]
Tempo é vida, enquanto há vida há tempo
Não há vida sem tempo, não há vida sem felicidade
Não há tempo contado, se tens vida não tens idade
Não interessa a tua idade, a vida dá-te eternidade
Dá-te juventude eterna para teres momentos eternos
Luas fraternas para as tuas noites de inverno
Mano, semeia o fruto onde o teu sonho vive
Ainda há tempo para tudo, ainda há tempo para seres livre[9]
[…]

O tempo na vida social
É comum ouvir-se dizer, entre fofocas na sociedade, que o fulano anda sempre nas barracas a beber, não se dá tempo para estudar ou trabalhar ou para a família. Ou ouvimos ainda que o sincrano está sempre a estudar, não conversa com ninguém, não é social, etc. Na verdade o homem é um ser social por essência e, sendo assim, a sociedade espera dele muita actividade no seu seio. A monotonia cria dissociação, individualismo e desarmonia na sociedade e ela muitas vezes é justificada pela falta de tempo. Os trabalhadores argumentam que não tem tempo de visitar amigos e familiares devido ao trabalho, os estudantes devido aos estudos, os camponeses devido a machamba, etc. a culpa toda recai no tempo, não no seu mau aproveitamento e gestão. Pois quem valoriza o tempo sabe o valor de cada segundo da sua vida.

Para que haja harmonia nas relações humanas é necessário respeitar o tempo, saber usá-lo, planejar e cumprir os planos. A temporalidade humana não pode ser cíclica, porque a vida humana não poderia ter sentido numa série de eventos que se repetem, sem inovação alguma. Para que a vida humana tenha sentido, a temporalidade humana deve ser linear e progressiva e isto pressupõe a existência de um plano preestabelecido pela própria pessoa: nós escolhemos o nosso próprio destino! Somos fautores da nossa própria história.

Como exemplo de quão importante é o tempo na sociedade, basta ver o que acontece quando um casal marca o tempo de encontro para um determinado lugar e um deles não chega a tempo, ou não comparece por alegada falta de tempo. O clima de descontentamento é enorme, sobretudo da parte da vítima, e muitas vezes pode levar a desistência no relacionamento. Outro exemplo, que é comum na nossa sociedade moçambicana, é a falta de cumprimento do tempo da família. As mulheres geralmente reclamam que os homens (maridos e filhos) não sabem voltar para casa a tempo, isto é, pouco antes da hora da família (esta varia de família em família). Reclamam nos jovens e senhores o hábito de madrugar fora de casa, o que muitas vezes torna as suas condutas duvidosas na família, bem como cria desarmonia no seu seio.

A falta de consciência da importância de tempo faz muitos não fazerem planos nas suas vidas, nos seus relacionamentos, no seu trabalho o que culmina muitas vezes em desentendimentos, rejeição, despromoção e menosprezo.

Há tempo para trabalhar, há tempo para lazer, tempo para namorar, tempo para reflectir, tempo para família, tempo para amigos. Tudo tem seu tempo!

O tempo na vida profissional
A frase “não tenho tempo” é própria de quem não sabe usar o tempo. Quem sabe usar o tempo tem sempre tempo. E se alguém trabalha de tal maneira a não ter tempo para o lazer, para louvar a Deus, para visitar a família e amigos, significa que trabalha mal, ou que é vítima de exploração do homem pelo homem. Da mesma maneira, se alguém brinca ou reza de modo que não possa ter tempo para as outras actividades importantes para o bem da vida, significa que brinca ou reza mal, há tempo para tudo basta saber gerir, planejar, usar o tempo de acordo com o planejado.

A má gestão e o mau uso do tempo no trabalho pode levar ao stress, que é uma doença que pode causar tantas outras doenças e problemas no trabalho e nos relacionamentos interpessoais. Se alguém não sabe usar o tempo arrisca-se a perder a vida, e se não sabe usar a vida arrisca-se a perder o tempo em coisas fúteis. O tempo é vida, a vida é tempo. Sempre que chegar um novo ano, e se te sentires espreguiçado e desmotivado leia o seguinte poema que poderá servir-te de fonte de inspiração:




ANO NOVO
Doze pancadas – e sobe o pano.
Começa a peça: é mais um ano

Palco vazio… Que será?
A peça é boa? É boa ou má?

Nunca se sabe, leitor amigo,
Mas ouve bem o que te digo

Falando a sério, sem fantasias:
Um ano é feito de muitos dias.

Para levá-lo direito ao fim,
Para ganhá-lo, procede assim:

Sempre que um dia novo começa
Faz a ti mesmo esta promessa:

“O dia de hoje vai ser em cheio.
Horas de estudo ou de recreio,

Na escola, em casa, por toda a parte
Dia que passas, quero ganhar-te.”

E mãos à obra, sem mais demoras,
Que um dia é feito de muitas horas,

Mas se uma hora for mal gasta,
Estraga-se o dia, que tanto basta…

Dia após dia, mês apos mês,
La vai o ano – e era uma vez!

Pensa que há tempo, que não há pressa…
Ah! Não te iludas! Vamos, começa!

Começa agora! Começa hoje,
Que enquanto esperas o tempo foge.

Leitor amigo… já sobe o pano!
Vive o teu dia! Ganha o teu ano![10]




Conclusão
Quantos perderam oportunidades de progredir na vida, por não terem sabido o tempo de brincar, estudar, sonhar e trabalhar?
Quantos perderam seu lar e família, por não terem respeitado o tempo de família, de voltar para casa?
Quantos perderam os seus empregos por não saberem o tempo de trabalhar?
Quantos perderam amigos por não se darem tempo para encontros, lazer e relaxar?
Quantos perderam batalhas humilhantes por não saberem dar ordens a tempo e apertar o gatilho?
Quantos perderam as suas vidas na rua por não saberem voltar para casa a tempo?
Quantos perderam os seus amores por não comparecerem sistematicamente a encontros alegando falta de tempo?
Quantos foram reprovados por não saberem estudar e ou apresentar-se a na hora certa na escola?
Quantos são trancados a porta por viverem fora do tempo?
Quantos…?
O tempo é vida, a vida é tempo! Amemos o tempo, automaticamente amaremos a vida!



[1] O tempo é como um pássaro: se não o agarras e ele voar, não o verás de novo (nossa tradução)
[2] O tempo muda (nossa tradução).
[3] Este é um dia triste e memorável (nossa tradução)
[4] O tempo tem seu limite; não o podemos ultrapassar (nossa tradução).
[5] A mudança ou movimento na Natureza, a sucessão dos dias e das noites e estacoes do ano constituem o tempo objectivo
[6] O registo do das mudanças, a sucessão dos dias e das noites e estacoes do ano na alma.

[8] Não gosto do tempo, ele torna as pessoas superocupadas, ele ressuscita a escravatura.
[9] Estrofes da letra Ainda há tempo do rapper português Valete.
Esther de Lemos in A Aventura da Palavra 2 (Antologia), pp. 117.

Filosofia de Intervenção social: alternativa a cultura de paz em Moçambique

Filosofia de Intervenção Social: Uma Alternativa à Cultura de Paz em Moçambique

Nota-introdutória
O artigo analisa o papel do ensino de filosofia na construção da democracia e espírito de cidadania em Moçambique. Nele propomos que a filosofia no ensino secundário, como no universitário, deve abandonar o seu carácter puramente teórico e contemplativo e que passe a ser um instrumento de intervenção social e de transformação da sociedade, conjugando a reflexão e a acção. Pois, ao nosso ver, ensinar a filosofia aos moçambicanos de modo que possam ser democráticos, cidadãos participativos e comprometidos com a coisa pública significa inculcar neles um espirito de paz, em que as ideias e palavra são as armas confiadas para a resolução dos problemas político-sociais, e não as armas bélicas.
Filosofia é uma das disciplinas que temos que encarar quando principiamos o ensino pré-universitário e, principalmente, o universitário no caso do nosso pais Moçambique. A palavra filosofia deriva do grego e é constituída por duas palavras filon = amor, ou amizade, ou busca; e sophia = sabedoria, verdade;  etimologicamente filosofia significa amor à sabedoria ou busca da verdade.
Para muitos, lidar com esta ciência não tem sido tarefa fácil, pois ela tem sido conotada como sendo ciência extremamente difícil, própria para os “loucos do saber” ou dos sábios, indivíduos que não têm tempo para nada na vida senão procurar problemas onde não existem. Aliás, Platão afirmara n’A República que a filosofia é ciência dos “espíritos nobres”, bem educados, que se isolam do mundo, limpos de corrupção, e que são  fieis à sua natureza e vocação (PLATÃO, 1949: 270).
O que caracteriza o estado de espirito dos filósofos é a curiosidade, a inquietude, o espanto ou o assombro perante o ser, como afirma Aristóteles. Este estado de espirito é que leva ao filósofo a um constante questionamento sobre o ser, sobre o homem, a sua vida e a sua relação com os outros homens, com o poder politico, com a natureza e com Deus. Mas é ainda a sua capacidade de questionar (e um questionamento crítico), que o leva a constante insatisfação pelas respostas obtidas, ao desejo constante de busca da verdade. Para alguns, a filosofia, ou melhor, o filósofo perturba a ordem pública, para outros ela não serve para nada.
Segundo Luckesi (1994), é preciso eliminarmos os preconceitos de que a filosofia é inútil, difícil e complicada, para ele a tarefa de filosofar não é tão difícil como se tem acreditado. Ele propõe três passos do processo do filosofar: 1º) Inventariar os valores que explicam e orientam a nossa vida, e a vida da sociedade, e que dimensionam as finalidades da prática humana; 2º) momento de crítica, tomar esses valores e submetê-los a crítica acerbada, questioná-los por todos os ângulos possíveis para verificar se são significativos e se, de facto compõem o sentido que queremos dar à existência; 3º) Construção crítica dos valores que sejam significativos para compreender e orientar nossas vidas individuais e dentro da sociedade. Estes três passos, só serão difíceis a aqueles que não tem a coragem para os trilhar.
A filosofia, juntamente com a educação, são instrumentos de transformação social, uma vez que orientam a existência humana, orienta convivência entre os homens, a sociedade. A própria educação precisa da orientação filosófica para a sua caminhada.
1.1 A Pertinência da filosofia na educação
Uma das questões que podemos levantar sobre a pertinência da introdução da filosofia em Moçambique, será: para quê o ensino de filosofia nas escolas e universidades moçambicanas? Que papel é chamada a desempenhar no contexto moçambicano? Ou, por outra, qual é a importância da aprendizagem da filosofia em Moçambique?
Ngoenha (2003), no prefácio do manual de filosofia daf 11ª e 12ª intitulado “A Emergência do Filosofar”, afirma que a pertinência da introdução da filosofia no ensino secundário nas escolas e universidades moçambicanas reside na capacidade de responder às diversas questões que são a ela colocadas, questões essencialmente filosóficas, principalmente de timbre, ético, epistemológico e político. Para Ngoenha a filosofia é um instrumento de emancipação, e é neste âmbito que o ensino de filosofia em Moçambique aparece para reforçar a consolidação da paz, a incrementação da democracia e o desenvolvimento económico e social.

1.2 Filosofia, democracia e cidadania
Os gregos mostraram-se os primeiros povos a optar por uma política democrática.  Por democracia entende-se uma forma de governo cuja soberania reside no povo, isto é, o povo decide quem deve governar, como deve governar, para que fim governar e que meios deve usar para consecução desse fim.
A democracia grega era uma democracia popular directa e elitista. Era popular directa porque o povo, ou melhor, qualquer um podia participar nas assembleias públicas e fazer decisões políticas sem que para tal fosse necessário ser um membro do governo ou representante oficial do povo, bastando apenas ser um cidadão competente para isso; era uma democracia elitista porque só os cultos, munidos de filosofia ou retórica, podiam dela participar. Só estes últimos podiam trazer soluções aos problemas da polis (Cidade-Estado), a partir do conhecimento e do poder da persuasão. Portanto, a Filosofia e a retórica eram vistos como requisitos necessários para a participação activa na vida da polis.
A filosofia não apenas é uma empresa construtora de utopias no mundo ideal, mas também uma empresa de reparação de falhas e defeitos do mundo real com vista a tornar este mais ou menos idêntico ao mundo ideal. Os trabalhadores desta empresa são os filósofos, seres não apenas racionais, mas também extremamente inquietos, críticos e comprometidos com busca da verdade, da justiça, da felicidade, da paz entre outros ideais, para a humanidade. E a finalidade do Estado é a de garantir a plena satisfação destes ideais ao seu povo.
Moçambique é um país com elevados índices de pobreza, de analfabetismo, problemas político-sociais, calamidades naturais, problemas ético-culturais e, sendo a maioria do povo analfabeta, é chamada a participar na condução da res publika sem meios para exercer a tal dita participação. No entanto, poucos se interessam em participar nas questões político-sociais. Todavia, a consolidação da democracia neste país depende dos níveis de participação do seu povo nas decisões da polis, não é um dever, é sim um direito cívico e é a partir dele que nos podemos tornar senhores de nós mesmos, responsáveis pelas nossas vidas e do nosso comum destino como moçambicanos.
Se a maioria do povo moçambicano não tem meios para exercer a participação activa nas decisões e problemas da polis, os filósofos o que fazem? Serão mesmo filósofos ou filo-filósofos? Ou talvez serão filósofos porque possuem o certificado de Filosofia com a bela e fantástica descrição ‘Licenciado em (Ensino de) Filosofia”, ou “Mestre em Filosofia”, ou ainda “Doutorado em Filosofia” ou esperam por este para se considerarem filósofos!? Então, para quê o ensino de filosofia, ou  a formação nesta área?
Hanah arendt (1993) criticou o silêncio e a indiferença dos filósofos perante as barbaridades cometidas pela politica. Ela afirmou que os filosofos  de então limitavam-se apenas a contemplar a verdade e não intervém na vida concreta dos homens. A sabedoria dos filósofos, é demasiado teórica que não ajuda na melhoria do mundo. O ideal do filósofo em Arendt é Sócrates. Para ela, Sócrates foi “um pensador que ficou entre os homens, que não tinha medo do sistema, que era cidadão entre os cidadãos”.
Mas antes de Arendt, Marx criticara toda a filosofia que até então tinha sido feita porque só se limitava a contemplar o mundo e não a transformá-lo. Para ele a filosofia é uma práxis, isto é, uma prática que visa transformar a sociedade.
Marx não nega a existência da teoria, pelo contrário, ela deve existir e ir ao encontro das massas. A teoria deve poder mover a sociedade para um estado melhor e, para tal, deve ser complementada pela praxis (prática). Afirma Marx: “contrariamente à filosofia alemã, que desce do céu para a terra, aqui parte-se da terra para céu” (Idem). Isto é, deve partir dos problemas histórico-sociais (a realidade concreta) para o que deveria ser (o ideal).
É neste contexto que defendemos que o ensino de filosofia nas escolas e universidades moçambicanas deve impulsionar aos estudantes o espirito de cidadania, isto é, de conhecimento contemplativo, a filosofia deve transformar-se num instrumento de intervenção social. Por cidadania entendemos não apenas o reconhecimento dos nossos direitos e deveres como cidadãos, mas também como sendo a qualidade de consciência que o cidadão tem do direito à participação política, não uma consciência teórica mas sim prática. Defendemos o ensino de filosofia para munir os moçambicanos de instrumentos teóricos e práticos para a intervenção social.
Filosofia de Intervenção Social porque pretende-se que seja dotada de acções que visem o bem-estar da sociedade, o que implica que será uma procura de mudança numa perspectiva de curto ou longo prazo.
O filósofo moçambicano, Severino Ngoenha, na sua obra “Os Tempos da Filosofia”, traz-nos uma visão preventiva e não contemplativa da filosofia. Tal como Karl Marx, ele defende que a filosofia não só deve interpretar o mundo, mas deve sobretudo transformá-lo procurando oferecer aos homens melhores alternativas de interpretar e agir sobre a sua história.
Para ele, os filósofos devem “inspirar-se dos modelos utópicos da justiça mas, por sua vez, tem que ter presente que esta justiça não se pode encontrar fora das conjunturas histórico-sociais condicionadas pelos seus imperativos políticos, económicos e sociais”. O que Ngoenha quer dizer é que podemos nos inspirar nas utopias filosóficas mas só podemos conquistar esses ideais se os tentarmos aplicar dentro do nosso contexto histórico-social.
Ngoenha (Idem) diz que para melhorar as condições de vida das populações é necessário que haja uma elite que não se confunda com os detentores de diplomas, mas com a produção de ideias e com a ousadia de participar, sabendo antecipadamente que ser intelectual foi e sempre será um risco.
Ora se a filosofia deve passar a ser interventiva, significa que ela terá que ser prática e dialógica, pois não pode haver verdadeira intervenção onde uns consideram –se os donos das ideias e das palavras em relação aos outros. A praxis dialógica consiste no uso da palavra para a transformação da realidade social e na conjugação da reflexão e acção. Este uso não é um privilégio de ninguém mas um direito de todos os cidadãos que vivem num estado democrático. O uso da palavra implica o reconhecimento do outro como sujeito, capaz de pensar, sentir e decidir sobre a sua vida em relação aos outros. O reconhecimento do outro como sujeito implica que o diálogo filosófico é um diálogo intersubjectivo (Castiano) em que diversos sujeitos buscam em comunhão construir a sociedade. O verdadeiro diálogo não se mistura com o egocentrismo, nem regionalismo, nem com racismo ou tribalismo. O verdadeiro diálogo é aquele que se dá entre pessoas iguais e diferentes. Iguais enquanto sujeitos da razão diálogica, da sua vida e do seu destino; diferentes enquanto pessoas que tem carácteres e perspectivas que embora diferentes e adversas, podem chegar a um consenso. Portanto, a palavra torna-se a arma através da qual possam ser disparados mortalmente todos  os factores ideológicos que enfermem a sociedade, as balas dessa arma serão as ideias, no geral, as filosóficas, em particular. Daí que, numa sociedade em que os homens depositam a confiança na palavra para a resolução dos problemas político-sociais, ser desnecessário o recurso às armas bélicas para a resolução dos mesmos. É neste sentido, que a filosofia de intervenção social aparece como uma alternativa para a cultura da paz.
Todavia, não basta que haja vontade de pensar e intervir, é necessário que as elites governantes moçambicanas abandonem o espírito autoritário e antidemocrático que tem caracterizado a política moçambicana, e pautem por um espirito democrático e de paz, garantindo a liberdade de pensamento e de expressão, para que não voltem a acontecer casos como Cardoso, Siba-Siba, Muxúngue e Cistac. Platão diz que a filosofia só terá prestígio num governo adequado. O governo adequado para Platao é aquele que respeita esta profissão (a filosofia) (PLATÃO, 1949: 272).
O governo moçambicano terá que promover uma sociedade aberta[1] (Popper) tomando, antecipadamente, a consciência de que, a filosofia e a paz não podem existir sem a liberdade, pois elas mesmas já são a manifestação da liberdade, liberdade de pensar diferente e dizer sem rodeio nem intimidações o que se pensa; liberdade pessoal, de viajar, de viver, etc. Fora disso, a história de Moçambique caracterizar-se-á por guerras ininterruptas.
Por isso, a filosofia deve sair da mente, dos escritórios, das salas de aulas e das bibliotecas e deve adquirir o hábito de passear pelos arredores da polis. Mas este passear deve ser um passear metódico, isto é, um passear que sirva de caminho para desvendar os problemas sociais e denunciá-los. Um passear que, na esteira de Luckesi, consideraríamos um método para inventariar os valores que explicam e orientam as nossas vidas, e a vida da sociedade (1), para, num segundo momento, submetê-los à critica, e por fim, num terceiro momento, fazermos uma construção critica dos valores que sejam significativos para orientar as nossas vidas (a igualdade, solidariedade, a liberdade, a justiça e a paz são os valores que devem orientar a vida dos moçambicanos). Um passear acompanhado de reflexão e que, através dessa reflexão, nasça a acção. A reflexão e acção (praxis) deverão conjugar-se para a transformação da sociedade. O objectivo será o de vigiar constantemente a sociedade denunciando qualquer tendência anti-social, no sentido de garantir que a justiça, o bem comum e a paz sejam consolidados. Para tal, a escola terá que passar a ser o lugar onde o debate sobre os problemas histórico-sociais (Freire) se realiza, e a filosofia será uma das armas para a resolução desses problemas. A educação terá como uma das nobres tarefas, a de inculcar a cultura de diálogo e, por conseguinte, de paz no espirito dos moçambicanos, pois que para Ngoenha “cada um de nós tem uma parte de bomba de agressividade dentro de si, não por razões naturais ou de instinto, mas pela má educação à violência” (NGOENHA, 2014: 150).

Bibliografia
ARENDT, Hannah. O que é Politica. 3ª ed. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2002.
CHAMBISSE, Ernesto Daniel et al. “ A Emergência do Filosofar”: ‘Filosofia 11ª e 12ª Classes.’1ª ed. Maputo, Moçambique Editora, 2004;
CHAUI, Marilena. Convite a Filosofia. São Paulo, Ática, 2000.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 11ª Edição. Rio de Janeiro; Paz e Terra, 2005.
LUCKESI, Cipriano. Filosofia da Educação. São Paulo;  Cortez, 1994.
MARX, K. H. & ENGELS, F. A Ideologia Alemã. s/c. Ridendo Castigat Mores, 1999.
NGOENHA, S.E. Os Tempos da Filosofia: Filosofia e Democracia Moçambicana; Maputo, Imprensa Universitária, 2004.
NGOENHA, S.E. Intercultura, Alternativa à Governação Biopolítica? Maputo; Publifix, 2014.
PLATÃO. A República.12ª edição. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1949.
POPPER. Karl Raimundo. A Sociedade Aberta e Seus inimigos: A Preamar da Profecia Hegel, Marx e a Colheita. 2º vol. São Paulo, Itatiaia, 1974.



[1] Para Karl Popper (1974) “sociedade aberta” é sociedade democrática liberal que cria condições para o exercício da liberdade de crítica.